Mostrando postagens com marcador identidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador identidade. Mostrar todas as postagens

09 novembro 2010

"Sou mesmo um dois."

“Lágrima é feita de água e sal. Isso mostra que existe um mar dentro da gente. Chorar é deixar o mar transbordar, eu fantasiava. Chorar é não querer morrer afogado. Chorar ajuda o mercuriocromo a curar mais depressa a ferida. Nunca perguntei à professora sobre as lágrimas. Tinha medo de escutar que ‘a ciência explicava’.

Sendo de açúcar e sal, quem gosta de açúcar vai gostar de mim. E quem gosta de sal vai gostar ainda mais. E para quem gosta de açúcar e sal eu viro arroz-doce. Vim ao mundo com necessidade de ser amado. Eles diziam: ‘Durma cedo que vou gostar de você’, e eu dormia; ‘Coma com a boca fechada que vou gostar de você’, e eu comia; ‘Escreva com a letra bonita que vou gostar de você’, e eu escrevia; ‘Deixa de chupar o dedo que vou gostar de você’, e eu deixava. Tudo o que eu mais queria era ser muito amado.

Até hoje adoro comida agridoce. Sou mesmo um dois. Existe um rolinho chamado primavera. Ele é servido com um molho agridoce nos restaurantes chineses. É um molho feito de suco de tomate e abacaxi. A gente põe na boca e não sabe se é açúcar ou sal. Gostaria de inventar o rolinho inverno para servir no meu aniversário de 119 anos. Meus convidados se serviriam escolhendo o melhor: mel ou limão, e chorariam de tanto rir. Tem uma música que diz: ‘O que dá pra rir dá pra chorar. É uma questão de peso e medida.’”

(Bartolomeu Campos de Queirós – Antes do depois)

24 julho 2009

meu nome é eu

Era uma vez um menino que se chamava... se chamava... peraí! Talvez seja melhor começar a história por outro ponto. Era uma vez uma moça que vivia encantada com tudo o que via; se espantava com a força daquilo que chamava de vida, que podia ser desde o movimento de um bicho para andar – e também o seu próprio, como bicho que é –, passando por um ronronar asmático de um gato, até, por exemplo, um ronco de fome que sentia, por vezes, sem ter querido sentir.

Adorava ficar bem quietinha depois de uma agitação só para ouvir seu coração batendo um pouco mais pra cima, assim, mais pro pé da orelha. Escutava muito e com atenção qualquer história que se dispusessem a lhe contar.

Um dia, de espanto, a moça percebeu que sua barriga vinha crescendo, e o ronco tão familiar passou a ser acompanhado também por uma mexida engraçada, vinda lá do fundo de não-sei-onde como uma colherada num pote de gelatina.

Mais ou menos assim, sentindo cada dia mais não só o seu, mas o outro coração também, a moça ganhou nos braços o menino que se chamava... bem, desde o início era sua grande dificuldade: antes de chamá-lo, precisava ver por que ele atendia.

Esperou dias até que resolveu batizá-lo de Francisco, como tantos de sua terra e por sua crença no santo querido. Mas não foi só isso não! Com um nome assim, como o de tantos outros, só ele poderia se dar o nome que merecia de verdade.

Nascido, por estranho que pareça, gordinho, o menino – ou Francisco, como queiram – foi crescendo e espichando suas dobras. Parece que nascera com a fome de saber da vida e de tudo o que o homem colocou dentro dela, matéria que tanto impressionava aquela moça.

Passava tempos e tempos que não sei qual medida observando, olhando, ouvindo bem para que quase nada lhe escapasse. Diziam se alimentar de vento porque nunca o viram com um prato de comida na mão. Os outros meninos até estranhavam no início o jeito daquele menino, mas inteligência de criança é lá coisa que se dê pra prever? Logo que perceberam que ele era assim, com seu ritmo meio engraçado, de quem não se apressa pra ser, achando engraçado mesmo assim, foram deixando que Francisco assim fosse.

Também com sua grande sabedoria de criança, Francisco sentia que as brincadeiras que faziam não eram por maldade (como costumam dizer por aí que criança é bicho cruel), quando o chamavam de pé-de-chumbo no jogo de bola, ou pé-de-vento quando, sem perceberem, escapava daquilo que não queria ou não gostava – Francisco não estava mais lá.

Fugia para se-sabe-lá com uma tranqüilidade de peixe dormindo (ou acordado, até porque a gente nunca sabe quando é um e quando é outro). “Deixa ele longe... depois ele volta”, falava a moça espantada, assim como alguns outros que passaram a chamá-lo de Chico porque, me contaram uma única vez, era um jeito mais estalado, assim, menos nome e mais chamação pr'aquele que, também num estalo, ia e voltava de seus tantos outros lugares.

Mas Chico só não bastava e, justo por perceberem bem o que só ele falava e era e se ia, Francisco, por seu próprio pé-de-moleque, do jeitinho que sua mãe com toda sua surpresa tanto esperara, passou a ser conhecido como Chico pé-de-nuvem... ou aquele menino que era uma vez.