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09 novembro 2010

"Sou mesmo um dois."

“Lágrima é feita de água e sal. Isso mostra que existe um mar dentro da gente. Chorar é deixar o mar transbordar, eu fantasiava. Chorar é não querer morrer afogado. Chorar ajuda o mercuriocromo a curar mais depressa a ferida. Nunca perguntei à professora sobre as lágrimas. Tinha medo de escutar que ‘a ciência explicava’.

Sendo de açúcar e sal, quem gosta de açúcar vai gostar de mim. E quem gosta de sal vai gostar ainda mais. E para quem gosta de açúcar e sal eu viro arroz-doce. Vim ao mundo com necessidade de ser amado. Eles diziam: ‘Durma cedo que vou gostar de você’, e eu dormia; ‘Coma com a boca fechada que vou gostar de você’, e eu comia; ‘Escreva com a letra bonita que vou gostar de você’, e eu escrevia; ‘Deixa de chupar o dedo que vou gostar de você’, e eu deixava. Tudo o que eu mais queria era ser muito amado.

Até hoje adoro comida agridoce. Sou mesmo um dois. Existe um rolinho chamado primavera. Ele é servido com um molho agridoce nos restaurantes chineses. É um molho feito de suco de tomate e abacaxi. A gente põe na boca e não sabe se é açúcar ou sal. Gostaria de inventar o rolinho inverno para servir no meu aniversário de 119 anos. Meus convidados se serviriam escolhendo o melhor: mel ou limão, e chorariam de tanto rir. Tem uma música que diz: ‘O que dá pra rir dá pra chorar. É uma questão de peso e medida.’”

(Bartolomeu Campos de Queirós – Antes do depois)

27 julho 2009

Coisas de menina

Não tive infância. Ao menos não essa das que falam os futuros-já-feitos-gênios, de lembranças claríssimas, viagens e epifanias de espaço sideral. Minha vista é curta, só alcança as brincadeiras de escada com minha companheira morango cacheada e a cama mundo de minha mãe.

Hoje, se ainda estivesse lá em casa, talvez meus pés ficassem de fora, mas, lá, eram apenas o disfarce do grande tamanho de meu pai; da altura, do pé, da mão – tudo o que compõe o baú que não escolhi carregar.

Cresci, ainda que já tenha nascido grande, ao lado de dois irmãos sete e seis anos mais velhos. Agora me lembro também da ida para a escola de mãos dadas com os dois da mesma forma pequenos-grandes, e de banhos com aquela aguinha roxa pra sarar a catapora.

Sempre gostei de água, conta minha mãe sobre o pedido diário para lavar o cabelo.

Sou grande – ainda ou agora sim de verdade –, posso lavar o cabelo quando quero, e até levar o pão quando posso.

A casa, o quarto, a cama, eles sim diminuíram, mas ainda carregam monstros e assombros assustadores. Por isso choro. Assim, corro nas águas do meu tempo...