O quarto estava cheio de água.
Eu me ajoelhei para que a barriga ficasse submersa.
Um peixe grande desses meio-laranja, meio-vermelho, meio-dourado, então, se aproximou, e, como um gato, se esfregou em meu ventre.
Me arrodeou e, voltando pro seu caminho, deixou que eu o acarinhasse, sentindo o liso brilhoso de suas escamas.
Fui presenteada. De mãe pra mãe, recebi o carinho de um filho que ainda se encontra assim, ser nadante na matéria de que sou feita.
para tudo o que geramos e parimos, bichos que somos, roçando nossos couros na terra dos dias... os nossos banais feitos heroicos.
07 dezembro 2011
09 novembro 2010
"Sou mesmo um dois."
“Lágrima é feita de água e sal. Isso mostra que existe um mar dentro da gente. Chorar é deixar o mar transbordar, eu fantasiava. Chorar é não querer morrer afogado. Chorar ajuda o mercuriocromo a curar mais depressa a ferida. Nunca perguntei à professora sobre as lágrimas. Tinha medo de escutar que ‘a ciência explicava’.
Sendo de açúcar e sal, quem gosta de açúcar vai gostar de mim. E quem gosta de sal vai gostar ainda mais. E para quem gosta de açúcar e sal eu viro arroz-doce. Vim ao mundo com necessidade de ser amado. Eles diziam: ‘Durma cedo que vou gostar de você’, e eu dormia; ‘Coma com a boca fechada que vou gostar de você’, e eu comia; ‘Escreva com a letra bonita que vou gostar de você’, e eu escrevia; ‘Deixa de chupar o dedo que vou gostar de você’, e eu deixava. Tudo o que eu mais queria era ser muito amado.
Até hoje adoro comida agridoce. Sou mesmo um dois. Existe um rolinho chamado primavera. Ele é servido com um molho agridoce nos restaurantes chineses. É um molho feito de suco de tomate e abacaxi. A gente põe na boca e não sabe se é açúcar ou sal. Gostaria de inventar o rolinho inverno para servir no meu aniversário de 119 anos. Meus convidados se serviriam escolhendo o melhor: mel ou limão, e chorariam de tanto rir. Tem uma música que diz: ‘O que dá pra rir dá pra chorar. É uma questão de peso e medida.’”
(Bartolomeu Campos de Queirós – Antes do depois)
Sendo de açúcar e sal, quem gosta de açúcar vai gostar de mim. E quem gosta de sal vai gostar ainda mais. E para quem gosta de açúcar e sal eu viro arroz-doce. Vim ao mundo com necessidade de ser amado. Eles diziam: ‘Durma cedo que vou gostar de você’, e eu dormia; ‘Coma com a boca fechada que vou gostar de você’, e eu comia; ‘Escreva com a letra bonita que vou gostar de você’, e eu escrevia; ‘Deixa de chupar o dedo que vou gostar de você’, e eu deixava. Tudo o que eu mais queria era ser muito amado.
Até hoje adoro comida agridoce. Sou mesmo um dois. Existe um rolinho chamado primavera. Ele é servido com um molho agridoce nos restaurantes chineses. É um molho feito de suco de tomate e abacaxi. A gente põe na boca e não sabe se é açúcar ou sal. Gostaria de inventar o rolinho inverno para servir no meu aniversário de 119 anos. Meus convidados se serviriam escolhendo o melhor: mel ou limão, e chorariam de tanto rir. Tem uma música que diz: ‘O que dá pra rir dá pra chorar. É uma questão de peso e medida.’”
(Bartolomeu Campos de Queirós – Antes do depois)
21 junho 2010
vulnerabilidade materna
Há feridas que não saram, filha.
E é com esta tua perna manca que farás teu jogo mandingado nessa roda sem ensaio...
E é com esta tua perna manca que farás teu jogo mandingado nessa roda sem ensaio...
08 janeiro 2010
Pela afe(c)tividade verbal
Sim, sou mãe do mundo. O mundo é parte de mim, porque de mim nascido. Ele vive por minha conta e graças aos meus olhos, mesmo quando eles se voltam pra dentro, brancos para esse universo. O sinto, o vejo, o provo. Mas, como minha cria, cria ele as suas pernas, e as minhas, pequenas, não conseguem abraçá-lo. Nem os que dele fazem parte, e o geram, e o criam também, mães por sua vez.
Embora bastante nova ainda, já dei vida a muitos amores. Alguns, com os quais esbarro por tantos caminhos, apenas filhos em potencial... nem chegam mesmo a desafiar as barreiras iniciais de toda maternidade. Outros, gestações interrompidas, pois nem todo fruto há de vingar, lei natural que há pouco aprendi.
Tive, ainda, filhos que me tiraram do peito antes mesmo de poder nutri-los e fazê-los fortes para também me alimentarem. Desses me queixo. O corpo sente a falta da alma e se endurece pela inflexibilidade do que nos força a contrariar a nossa natureza.
Mas aqueles que seguiram seu rumo, ah, por esses me faço o que sempre fui. Menina, mulher. Aceito minha condição de também casa de outros. Tenho um vazio constante que, nesse sentido, só me preenche. Recebo sempre e me doo mais. Tiro de mim o que sempre me falta, me aparto e, dividida, me multiplico naquilo que crio e acarinho.
Apesar de nunca ter gerado um único filho em meu ventre, nutro todos os dias existências alheias, que, de mim paridas, carregam parte do que sou e deixam parte do que fomos.
Por isso, é preciso cuidado. Não medo. Brincar de Deus assim todos os dias é coisa séria. Mas também banal. E não há leviandade no que falo, mas sim a mais pura aceitação dessa minha condição.
Sim, sou mãe do mundo. E assim me paro. Ou, melhor, vou me parindo...
obs.: o texto – também um filho – foi lentamente escrito desde 08 de dezembro de 2009, dia de Nossa Senhora da Conceição.
Embora bastante nova ainda, já dei vida a muitos amores. Alguns, com os quais esbarro por tantos caminhos, apenas filhos em potencial... nem chegam mesmo a desafiar as barreiras iniciais de toda maternidade. Outros, gestações interrompidas, pois nem todo fruto há de vingar, lei natural que há pouco aprendi.
Tive, ainda, filhos que me tiraram do peito antes mesmo de poder nutri-los e fazê-los fortes para também me alimentarem. Desses me queixo. O corpo sente a falta da alma e se endurece pela inflexibilidade do que nos força a contrariar a nossa natureza.
Mas aqueles que seguiram seu rumo, ah, por esses me faço o que sempre fui. Menina, mulher. Aceito minha condição de também casa de outros. Tenho um vazio constante que, nesse sentido, só me preenche. Recebo sempre e me doo mais. Tiro de mim o que sempre me falta, me aparto e, dividida, me multiplico naquilo que crio e acarinho.
Apesar de nunca ter gerado um único filho em meu ventre, nutro todos os dias existências alheias, que, de mim paridas, carregam parte do que sou e deixam parte do que fomos.
Por isso, é preciso cuidado. Não medo. Brincar de Deus assim todos os dias é coisa séria. Mas também banal. E não há leviandade no que falo, mas sim a mais pura aceitação dessa minha condição.
Sim, sou mãe do mundo. E assim me paro. Ou, melhor, vou me parindo...
obs.: o texto – também um filho – foi lentamente escrito desde 08 de dezembro de 2009, dia de Nossa Senhora da Conceição.
27 julho 2009
Coisas de menina
Não tive infância. Ao menos não essa das que falam os futuros-já-feitos-gênios, de lembranças claríssimas, viagens e epifanias de espaço sideral. Minha vista é curta, só alcança as brincadeiras de escada com minha companheira morango cacheada e a cama mundo de minha mãe.
Hoje, se ainda estivesse lá em casa, talvez meus pés ficassem de fora, mas, lá, eram apenas o disfarce do grande tamanho de meu pai; da altura, do pé, da mão – tudo o que compõe o baú que não escolhi carregar.
Cresci, ainda que já tenha nascido grande, ao lado de dois irmãos sete e seis anos mais velhos. Agora me lembro também da ida para a escola de mãos dadas com os dois da mesma forma pequenos-grandes, e de banhos com aquela aguinha roxa pra sarar a catapora.
Sempre gostei de água, conta minha mãe sobre o pedido diário para lavar o cabelo.
Sou grande – ainda ou agora sim de verdade –, posso lavar o cabelo quando quero, e até levar o pão quando posso.
A casa, o quarto, a cama, eles sim diminuíram, mas ainda carregam monstros e assombros assustadores. Por isso choro. Assim, corro nas águas do meu tempo...
Hoje, se ainda estivesse lá em casa, talvez meus pés ficassem de fora, mas, lá, eram apenas o disfarce do grande tamanho de meu pai; da altura, do pé, da mão – tudo o que compõe o baú que não escolhi carregar.
Cresci, ainda que já tenha nascido grande, ao lado de dois irmãos sete e seis anos mais velhos. Agora me lembro também da ida para a escola de mãos dadas com os dois da mesma forma pequenos-grandes, e de banhos com aquela aguinha roxa pra sarar a catapora.
Sempre gostei de água, conta minha mãe sobre o pedido diário para lavar o cabelo.
Sou grande – ainda ou agora sim de verdade –, posso lavar o cabelo quando quero, e até levar o pão quando posso.
A casa, o quarto, a cama, eles sim diminuíram, mas ainda carregam monstros e assombros assustadores. Por isso choro. Assim, corro nas águas do meu tempo...
26 julho 2009
Eu sou uma mulher
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.
Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho d'água escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.
Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ou vento.
O sangue masculino
tinge as armas e
o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.
O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda da fêmea.
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.
(Marina Colasanti)
que sempre achou bonito
menstruar.
Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.
Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho d'água escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.
Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ou vento.
O sangue masculino
tinge as armas e
o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.
O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda da fêmea.
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.
(Marina Colasanti)
24 julho 2009
meu nome é eu
Era uma vez um menino que se chamava... se chamava... peraí! Talvez seja melhor começar a história por outro ponto. Era uma vez uma moça que vivia encantada com tudo o que via; se espantava com a força daquilo que chamava de vida, que podia ser desde o movimento de um bicho para andar – e também o seu próprio, como bicho que é –, passando por um ronronar asmático de um gato, até, por exemplo, um ronco de fome que sentia, por vezes, sem ter querido sentir.
Adorava ficar bem quietinha depois de uma agitação só para ouvir seu coração batendo um pouco mais pra cima, assim, mais pro pé da orelha. Escutava muito e com atenção qualquer história que se dispusessem a lhe contar.
Um dia, de espanto, a moça percebeu que sua barriga vinha crescendo, e o ronco tão familiar passou a ser acompanhado também por uma mexida engraçada, vinda lá do fundo de não-sei-onde como uma colherada num pote de gelatina.
Mais ou menos assim, sentindo cada dia mais não só o seu, mas o outro coração também, a moça ganhou nos braços o menino que se chamava... bem, desde o início era sua grande dificuldade: antes de chamá-lo, precisava ver por que ele atendia.
Esperou dias até que resolveu batizá-lo de Francisco, como tantos de sua terra e por sua crença no santo querido. Mas não foi só isso não! Com um nome assim, como o de tantos outros, só ele poderia se dar o nome que merecia de verdade.
Nascido, por estranho que pareça, gordinho, o menino – ou Francisco, como queiram – foi crescendo e espichando suas dobras. Parece que nascera com a fome de saber da vida e de tudo o que o homem colocou dentro dela, matéria que tanto impressionava aquela moça.
Passava tempos e tempos que não sei qual medida observando, olhando, ouvindo bem para que quase nada lhe escapasse. Diziam se alimentar de vento porque nunca o viram com um prato de comida na mão. Os outros meninos até estranhavam no início o jeito daquele menino, mas inteligência de criança é lá coisa que se dê pra prever? Logo que perceberam que ele era assim, com seu ritmo meio engraçado, de quem não se apressa pra ser, achando engraçado mesmo assim, foram deixando que Francisco assim fosse.
Também com sua grande sabedoria de criança, Francisco sentia que as brincadeiras que faziam não eram por maldade (como costumam dizer por aí que criança é bicho cruel), quando o chamavam de pé-de-chumbo no jogo de bola, ou pé-de-vento quando, sem perceberem, escapava daquilo que não queria ou não gostava – Francisco não estava mais lá.
Fugia para se-sabe-lá com uma tranqüilidade de peixe dormindo (ou acordado, até porque a gente nunca sabe quando é um e quando é outro). “Deixa ele longe... depois ele volta”, falava a moça espantada, assim como alguns outros que passaram a chamá-lo de Chico porque, me contaram uma única vez, era um jeito mais estalado, assim, menos nome e mais chamação pr'aquele que, também num estalo, ia e voltava de seus tantos outros lugares.
Mas Chico só não bastava e, justo por perceberem bem o que só ele falava e era e se ia, Francisco, por seu próprio pé-de-moleque, do jeitinho que sua mãe com toda sua surpresa tanto esperara, passou a ser conhecido como Chico pé-de-nuvem... ou aquele menino que era uma vez.
Adorava ficar bem quietinha depois de uma agitação só para ouvir seu coração batendo um pouco mais pra cima, assim, mais pro pé da orelha. Escutava muito e com atenção qualquer história que se dispusessem a lhe contar.
Um dia, de espanto, a moça percebeu que sua barriga vinha crescendo, e o ronco tão familiar passou a ser acompanhado também por uma mexida engraçada, vinda lá do fundo de não-sei-onde como uma colherada num pote de gelatina.
Mais ou menos assim, sentindo cada dia mais não só o seu, mas o outro coração também, a moça ganhou nos braços o menino que se chamava... bem, desde o início era sua grande dificuldade: antes de chamá-lo, precisava ver por que ele atendia.
Esperou dias até que resolveu batizá-lo de Francisco, como tantos de sua terra e por sua crença no santo querido. Mas não foi só isso não! Com um nome assim, como o de tantos outros, só ele poderia se dar o nome que merecia de verdade.
Nascido, por estranho que pareça, gordinho, o menino – ou Francisco, como queiram – foi crescendo e espichando suas dobras. Parece que nascera com a fome de saber da vida e de tudo o que o homem colocou dentro dela, matéria que tanto impressionava aquela moça.
Passava tempos e tempos que não sei qual medida observando, olhando, ouvindo bem para que quase nada lhe escapasse. Diziam se alimentar de vento porque nunca o viram com um prato de comida na mão. Os outros meninos até estranhavam no início o jeito daquele menino, mas inteligência de criança é lá coisa que se dê pra prever? Logo que perceberam que ele era assim, com seu ritmo meio engraçado, de quem não se apressa pra ser, achando engraçado mesmo assim, foram deixando que Francisco assim fosse.
Também com sua grande sabedoria de criança, Francisco sentia que as brincadeiras que faziam não eram por maldade (como costumam dizer por aí que criança é bicho cruel), quando o chamavam de pé-de-chumbo no jogo de bola, ou pé-de-vento quando, sem perceberem, escapava daquilo que não queria ou não gostava – Francisco não estava mais lá.
Fugia para se-sabe-lá com uma tranqüilidade de peixe dormindo (ou acordado, até porque a gente nunca sabe quando é um e quando é outro). “Deixa ele longe... depois ele volta”, falava a moça espantada, assim como alguns outros que passaram a chamá-lo de Chico porque, me contaram uma única vez, era um jeito mais estalado, assim, menos nome e mais chamação pr'aquele que, também num estalo, ia e voltava de seus tantos outros lugares.
Mas Chico só não bastava e, justo por perceberem bem o que só ele falava e era e se ia, Francisco, por seu próprio pé-de-moleque, do jeitinho que sua mãe com toda sua surpresa tanto esperara, passou a ser conhecido como Chico pé-de-nuvem... ou aquele menino que era uma vez.
Assinar:
Postagens (Atom)